domingo, janeiro 19, 2014

São poucas as pessoas que, quando podem, gostam de ir ao cinema à tarde, sozinhas, em dia "útil". Eu sou uma delas.

Pessoalmente, vou porque choro mais à vontade. Em geral, minha primeira opção é por filmes tristes, que me fazem ter uma crise existencial por 98, 113 ou 122 minutos.

(em tempos nos quais a felicidade, a alegria e o sorriso são óbvios e praticamente obrigatórios, chorar sem correr o risco de ser acusada de ser depressiva [porque depressão é coisa contemporânea], sensível demais [porque sou feminina] ou de estar em dias de TPM [porque sou fêmea] é um oásis para mim. não ter que responder ao clássico "nossa, por que você se emocionou tanto?": orgasmo)

No silêncio ouço os ruídos da sala, a respiração das pessoas e algumas conversinhas segundos antes do filme começar. Percebo o tédio dos funcionários que esperam a movimentada noite chegar,  expulsando a monotonia da tarde preguiçosa...

(sinto que esses funcionários nos veem como os personagens estranhos que guardam segredos excêntricos nos filmes de Almodóvar)

À tarde quase não há cheiro de pipoca. Não comemos muita pipoca. Além de fazer barulho (somos meio chatos), desconcentra. Inunda os sentimentos amargos e melancólicos - que muitas vezes procuramos no escuro da sala  - daquele sabor alegre da manteiga... lembranças insuportáveis da Família Doriana.

No mais... cinema.

Assistir às mazelas e às delícias dos personagens. Viver suas vidas chatas e suas viagens loucas.

Transas e assassinatos.

Gargalhadas e silêncios.

mary jane

segunda-feira, março 24, 2008

Oração pra boi dormir

Caminhava como uma heroína dos irmãos Grimm, entre árvores, cantarolando uma canção besta, pensando no príncipe encantado.
Era mulherzinha. Sainha, blusinha, sapatinho, cabelinho, bo...quinha. Toda pequenininha. Seu sorrisinho era tão inocente quanto o de uma meretriz francesa. Ou de uma daquelas musas televisivas que parecem estar sempre prontas para o assunto...
Mas a mulherzinha não se achava a tal. Se dizia coitadinha, não tinha namoradinho, não dava beijinhos, tampouco a bundinha. Redondinha, até. Ela era muito tristinha.
Mesmo assim cantarolava. Tinha, no fundo, bem no fundinho mesmo, a esperança de encontrar alguém assim, legalzinho, bonitinho, romantiquinho, que desse umas florzinhas com cartinhas de vez em quando - e que a fizesse ouvir uns sininhos, de vez em sempre (mas isso ela não contava pra ninguém).
Então ela rezava. Rezava demais. Tinha muita "fé". Muita mesmo, acreditava até que se os santos vissem as suas coxinhas, poderiam se render aos seus pedidos matrimoniais. Então ela dava uma rezadinha de shortinho, mini-sainha, vestidinho. Ou então confessava seus poucos pecadinhos.
O padre adorava.
-Chegue mais perto, minha filha. Diga, pecaste?
-Ai padre... eu estou me sentindo tão envergonhadinha... pensar em bobeirinhas é pecado?
-Que tipo de bobeiras? - e já começava a suar...
-Ai padre, preciso falar mesmo?
-Diga, minha filha... não esconda nada - e olhava as perninhas, a bundinha, lamentava não poder dar uma bela encoxadona. E pedia perdão, de olhos fechados. E sonhava poder comê-la, de olhos bem abertos.
-Eu tenho sentido muito a falta de um namoradinho... alguém que me fizesse bem alegrinha, sabe?
-Hã... - e não falava mais nada, começava o ritual... segurava bem firme o "crucifixo".
-Tenho pensado muito nisso... e tenho tido outros sonhos impuros. Pequei, né?
-Aham...
-Padre, o senhor está me ouvindo? Parece tão "compenetrado"...
Era o diabo. Só podia. O coisa-ruim, lá no confessionário, fazia o padreco chamar Jesus de Genésio. A safadinha rezava de forma tão sincera que até parecia uma beatinha.
Levantou-se. Em nome do pai, do filho e do espírito-santo, ajeitou a saia. O cabelo. A blusinha.
-Obrigada, padre. Me sinto bem melhor agora.
-Pode ir, minha filha. Volte sempre...
Hoje o padreco abandonou a batina. Ficou com a mulherzinha. Ele até é legalzinho, romantiquinho, atende aos quesitos das florzinhas e sininhos.
E nossa heroína continua bastante religiosa... Mas o padreco não se engana, e abaixa a cabeça quando passa pelo batente da porta.

Amém.



mary jane

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Lembro-me da primeira vez que ouvi uma frase, entre muitas já ditas a mim, que hoje soa como uma verdade irrefutável. Tudo bem, talvez esse "irrefutável" seja um pouco pesado, muito verdadeiro e deveras sintomático: coisa de velho. Meu caro, dizer que "nascemos sozinhos e morremos sozinhos" não é um exagero. É um estratagema. O inimigo é a implacável solidão, essa cólera que bate à minha porta quando fecho os olhos e respiro fundo, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e. Lá vem ela, traiçoeira, alcoviteira safada, quer me unir à tristeza, à melancolia, à realidade. Bom, a realidade é justamente essa: só. Estar só. Se ver só. Então me pego pensando em maneiras de saber lidar com isso, essa dor, esse sulco.
Encaro a maldita de frente: sim, sou só. E sempre serei.
Pronto, ela sabe que eu sei o segredo.
Certa vez, enquanto tentávamos nos acertar, ela me disse que essa confusão toda tem nome. Amor. Em letras garrafais, proporcionais ao tamanho do mal - e do bem - que ele faz.
Talvez mais maldito ainda seja o amor.
Sereno, de canto doce e abraço quente - que nos leva a querer tudo e que não deixa levar nada.


mary jane

sexta-feira, dezembro 28, 2007

O próximo ato

cena 1

roupa
fresta
corpo
gosto
gesto

cena 2

luz
dentes
voz
pele
sal

cena 3

silêncio.

cena 4

- você vem?
- nunca e sempre.
- ...
- me revelo. não quero.
- eu sei.
- você diz.
- você finge.
- você quer.
- eu preciso.
- mas eu...
- eu entendo. pode ir.
- mas sempre vou ficar.
- eu, definitivamente, sei.

cena 5

Brigitte Bardot acena com a mão, num filme muito antigo.


mary jane
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.
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"a saudade/é brigitte bardot/acenando com a mão/num filme muito antigo"
***
Brigitte Bardot, Z. B.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Deu o primeiro gole. Profundo. A gota violácea escapou-lhe e conheceu seu colo, tepidamente nu.
Riu-se toda. Era a primeira vez que sentia-se livre: a porta que G. batera antes de sair ainda estava entreaberta e sua imagem diminuía no horizonte como uma chama que se apaga lentamente.

Por um instante, lamentou não poder recorrer à língua quente daquele que a deixara, para salvar a gota que ia descobrindo cada curva do seu corpo lânguido e claro. Superou tal falta dando o segundo gole, sentindo o gosto do vinho que guardara durante anos, esperando uma ocasião digna de consumi-lo.

Dizia-se que Tannat hamonizáva-se com carnes vermelhas e molhos fortes: perfeita ocasião.

Provando sabor tão marcante quanto o rastro carmim deixado pela gota em sua pele alva, estendeu-se sobre a cama acetinada. O robe negro, entreaberto, mal roçava o lençol, escorregando por entre as formas voluptuosas da mulher. Anoitecia.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Tocou o papel. Uma carta.

Antes que anunciem coisa indevida: não. Não era de amor. Não o amor que entrega-se na face rosada de quem permite escapar o sorriso pelo canto da boca, acompanhado pelo olhar baixo que, num delicioso paradoxo, deseja se esconder e se revelar. Sôfrego.

Não esse amor.

Desgastado. Um amor que caminha como o velho do outro lado da rua, para quem olhamos e enxergamos apenas a impossibilidade de ser como ele algum dia. Um amor esculpido pelo tempo, repleto daquela que representa a certeza de algo que não existe mais: a lembrança.

Mas era o amor.

Então sorriu. Mais uma vez, não. Não felicidade, gozo. A essa altura da vida, palavras banhadas em ouro ou fel fazem pousar um sorriso nos lábios de quem as toma... sorriso sábio, não sofre as desventuras da frustração.

Despedida. Confissão. Uma carta antiga.

Apenas recolheu-se. Olhar longe, o sorriso no rosto. Respirou fundo, a brisa beijava seus cabelos prateados... o viço da pele se escondia com o passar dos dias.

E havia o amor. Sempre pouco.


mary jane

sexta-feira, novembro 16, 2007

alter ego

verdade ou desafio?

sempre que escolhemos a verdade, optamos pelo desafio - que por sua vez, desfia o novelo dos sonhos.

meu novelo de ilusões acabou. não há desafio que me desfie mais. acreditar em quê? pra quê?

agora...

agora minha trama é com cordas. grossas, rústicas: qualquer um pode ver onde elas atam e desatam os nós da minha garganta.

acreditem! sou eu mesma, sendo outra.




mary jane

quinta-feira, outubro 18, 2007

- E o o que acontece quando duas pessoas se separam de comum acordo?


- Ninguém se separa. As pessoas se abandonam.




do filme O Passado






sexta-feira, agosto 17, 2007

em processo de evacuação, digo, construção...

Ela caminha rapidamente. Olhar atento, cumprimenta aquela garota com quem raramente fala e que muitas vezes critica. Crítica solitária, claro.


Entra no corredor. Passa pelas poucas pessoas que o atravessam séria, olhar compenetrado, como quem caminha pensando em mil coisas: o dia-a-dia, o projeto, a roupa, os deveres, a espera. Caminha com ares de mulher moderna, preocupada com o futuro. Uma multi-mulher. "Senhores, esta mulher não tem tempo a perder", pensa. Todos podem notar isso, o que não imaginam é que a frase tem tom irônico e que a ânsia em ser rápida e decidida é por um motivo bem menos requintado, acompanhado por uma dose generosa de recato.


"Feminino". Ela chega ao seu destino. Um banheiro. Largo, branco e vazio. "Vazio, graças a deus", comemora - em pensamento, claro. Em seu rosto a mulher moderna permanece, afinal de contas, pode ser que alguém apareça.


Alta, séria, bonita. Sorriso largo, olhar profundo. Seios fortes, inteligente. Ela sabe opinar sobre tudo, fala três línguas. Bom senso inigualável. Bem humorada, carinhosa. Ela sabe o que quer. Em sua página eletrônica pessoal, frases célebres em meio à sua breve descrição. Ela parece nos contar tudo. Não se engane. A moça guarda um segredo terrível: possui intestinos.


Banheiro vazio, ela pode escolher o box que desejar... passam um, dois, três... hum... o último parece perfeito, se alguém chegar, nunca dará conta que a mulher-gato está lá, seguindo o fluxo natural das comidas, digo, das coisas. Entra, fecha a porta. Olha à sua volta e faz a vistoria de sempre, rapidamente. Não vê o gancho para colocar sua bolsa, então critica. Crítica solitária, como sempre. Pendura a bolsa no fecho da porta mesmo, afinal o que ainda é mais importante é o segundo tópico da vistoria: papier toilette. Tudo ok, ela inicia o ritual. Um, dois, três, oito pedaços de papel para forrar o assento. Dois para cada lado, para não ter perigo de encostar seu derrière onde tantas outras mulheres encostam os seus. Tudo certo, ela se acomoda.



Olha para o alto. Nota a presença de algumas tropas daqueles malditos mosquitos de luz, prontos para atacar qualquer momento de paz na privada, digo, privada. Então xinga. Bando de filhos da puta! Queridos, compactuemos com a angústia da mademoiselle em questão. Já imaginaram se um desses seres desprezíveis decide ver mais de perto um exemplar do austero ser humano em um momento tão primitivo quanto ele próprio? Xeque-mate no orgulho de nossa lady. E sabemos que orgulho ferido é uma merda - providencial, aliás.


quinta-feira, dezembro 21, 2006

Instinto Coletivo


Nada muito profundo para ser dito. Só o que veio à flor da pele quando me deparei com essa foto.

Forte. Muito forte.

Imagine uma visão panorâmica. Agora aperte o zoom. Rápido. E ele exibe essa imagem.

O legado histórico "concedido" a uma nação e seu sentimento mais íntimo, profundo, individual. A pequena mão sobre a boca maternal, como quem se rende à solidão:



"Somos só nós, ninguém vai nos ouvir, cala tuas angústias e poupa essa energia gasta em vão. Fica comigo agora."



mary jane


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Cálice (Chico Buarque)

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça

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Mulher nigeriana e a mão de seu filho, a foto vencedora do prêmio World Press Photo 2006(autor: Finbarr O'Reilly)









segunda-feira, novembro 27, 2006

tempo

vc já sentiu um vazio?
mas assim, vazio de alma?
vazio, como um copo vazio. vazio mesmo. como se fosse pele e ar.
como se vc respirasse o que há dentro de vc? AAAAAAAAAAAaaarrr......

já esteve à margem de vc mesmo?
olho fotos, tento recuperar sensações... AAAAAAAAAAAAaaarrr.......

músicas..... convicções...... o tempo passa... AAAAAAAAAaaarr...

cara, vc já parou pra pensar nisso? o tempo passa. digito um ponto .
pronto. lá se foi. mais um segundo. outro. e outro. vários..

AAAAAAAAAAAaaaaaarrrr.....

onde ficam guardados os cheiros, sensações, risos, olhares que o tempo leva consigo?

poderiam ficar arquivados.

aí, quando viesse esse vazio....... AAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaarrrrrrr...

puxaria uma pasta.

o tempo dói.

o que é a saudade senão a dor do tempo?

é muito louco.......
civilizações passaram, mulheres e homens cresceram, lutaram, viveram à sua época, às suas convicções; já teve fogueira, escravidão, navegações, bomba atômica, idade do fogo, idade da pedra, epidemias, pirâmides, escrita cuneiforme, deuses gregos, apartheid, nanotecnologia, lua, marte.

e ela existe. e sempre existiu.

todos já sentiram saudade.







mary jane

quinta-feira, setembro 28, 2006

Uma vez aconteceu.

Cabeça baixa, sustentada por uma só mão, cotovelo apoiado na perna; tronco levemente curvado, relaxado, em um breve "efeito dominó".... ah.... se alguém chegasse e fizesse algo para desarmonizar aquela cadeia de sobrepesos.....

A folha na outra mão, gelidamente parada. Olhos fixos. Boca calada. E antes que anunciem coisa indevida: não. Não era de amor.

Então as palavras caminharam até seus olhos. Penetraram. Tangendo a retina, foram carregadas pelas entranhas do cérebro e retornaram subitamente: diante de si um pensamento que não se contentou em ser imaterial. Brusca e salgadamente explodiu.... materializou-se, tornou-se líquido....

O que aconteceu?
Fez sentido.


mary jane

quarta-feira, setembro 20, 2006

Você quer ser John Malkovich? Eu quero ser Simone.

"Simone Está Nua

Parecia só mais uma mulher nua. Não era. Ela nunca participou do Big Brother, não é atriz e modelo, jamais foi à Ilha de Caras. Para falar a verdade, acho que pouca gente um dia parou para pensar que ela pudesse tirar a roupa. Bem, podia. Eu vi a Simone de Beauvoir nua. No jornal. Gostosa, até. Aliás, mais que nua: apenas de salto alto, o que de algum jeito a deixa ainda mais pelada. É como a marquinha de biquíni, reforçando a nudez ao destacar a ausência de qualquer pedaço de pano, por menor que fosse. O texto informava que ela tinha 42 anos quando a foto foi tirada, em 1950. Parece menos. Derrière firme e volumoso como as mais de 800 páginas de O Segundo Sexo. Quantas mulheres se deixariam fotografar sem roupa aos 42, décadas antes da Coca Light, power ioga, Diet Shake e outras coisas para emagrecer com nome em inglês? Melhor: a foto não teria sido batida por seu companheiro de existência e existencialismo, e sim por um amigo. Um “homem travesso”, ela contou. Enfim. A porta entreaberta dá mesmo impressão de ser uma imagem roubada. Ao mesmo tempo, a pose é boa demais para um flagrante. Perna esquerda mais à frente, as costas empinadas, braços altos. Não é a única incerteza da imagem. As mãos ajeitam com cuidado grampos para prender o cabelo. Ou seria para soltar o cabelo? Ela está saindo ou chegando? É a mulher nua se arrumando para virar o símbolo feminista, ou o contrário? Nem importa muito. A foto é irresistível porque mostra que força e feminilidade cabem no mesmo corpo. Simone de Beauvoir está mais Simone de Beauvoir nesse retrato íntimo em preto-e-branco do que naqueles em que aparece com um lenço na cabeça, séria. Aqui, ela mostra uma idéia poderosa, a de que uma mulher não precisa optar entre inteligência ou beleza, carreira ou fogão, poder ou família. Pode ter tudo. E, se é assim, para que se contentar com menos? "

fragmento do editorial da revista Tpm, edição #57 - por Fernando Luna

segunda-feira, setembro 18, 2006

Ela fitou-o.


Estendendo o corpo sobre a cama, fechou os olhos. Quando abriu-os, olhou o nada, como quem acorda de repente, cortando madrugada de morno sono.


Ele havia apagado a luz.


Sorriu.


Erguendo-se, procurou-o. Então mãos envolveram seu ventre, por baixo da blusa de tênue tecido. Coxas abraçaram seu quadril. Profecias penetraram seus ouvidos.


Foi quando o riso largo cedeu espaço à expressão séria, entre o prazer e a dor.


A boca entreaberta balbuciava a súplica por se chegar a algum lugar.


Sabiam onde.


Desejou-o. Muito. Com um movimento rápido e denso, virou-se, envolvendo-o em seus lânguidos braços. A respiração já podia ser ouvida. E o sal da pele refletira a tímida luz que insistia em passar pelas mínimas fissuras da janela. Beijou-o. Madura e deliciosamente.


As vestes denunciavam o desejo esculpido com o passar dos dias.